Voltei-me para ela; Capitu tinha os olhos no chão. Ergueu-os logo, devagar, e ficamos a olhar um para o outro… Confissão de crianças, tu valias bem duas ou três páginas, mas quero ser poupado. Em verdade, não falamos nada; o muro falou por nós. Não nos movemos, as mãos é que se estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegando-se, apertando-se, fundindo-se. Não marquei a hora exata daquele gesto. Devia tê-la marcado; sinto a falta de uma nota escrita naquela mesma noite, e que eu poria aqui com os erros de ortografia que trouxesse, mas não traria nenhum, tal era a diferença entre o estudante e o adolescente. Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias de latim e era virgem de mulheres. Não soltamos as mãos, nem elas se deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam a meter-se uns pelos outros… Padre futuro, estava assim diante dela como de um altar, sendo uma das faces a Epístola e a outra o Evangelho. A boca podia ser o cálice, os lábios a patena. Faltava dizer a missa nova, por um latim que ninguém aprende, e é a língua católica dos homens. Não me tenhas por sacrílego, leitora minha devota; a limpeza da intenção lava o que puder haver menos curial no estilo. Estávamos ali com o céu em nós. As mãos, unindo os nervos, faziam das duas criaturas uma só, mas uma só criatura seráfica. Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas, as palavras de boca é que nem tentavam sair, tornavam ao coração caladas como vinham…
Machado de Assis.
Sou apaixonado por abraços. Não resisto a segurança de abraços fortes, sinceros que me envolvem e sinto como se um choque de esperança me fizesse ver as coisas de outra maneira. Então, poupe-se de procurar palavras pra me agradar, de algo que me faça sorrir e me sentir melhor… Apenas me abrace, e me segure bem forte.
Caio Fernando Abreu.
Eu cansei de escrever inúmeros textos tentando achar uma resposta ou um motivo, uma razão que tapasse as lacunas em branco que ficaram com a sua partida. Simplesmente cansei. Porque você se foi mas eu fiquei. Meus amigos ficaram, minhas família, as aulas da faculdade, as contas do fim do mês. E eu seria o maior egoísta do mundo se continuasse no meu mundinho chorando magoas enquanto a vida continua. Chega de afastar quem quer se aproximar. A vida tem um plano pra cada um de nós e chegou a hora de começar aprender a seguir sem você.
Querido John.
Um inverno quente, em que você me esquentava com o calor de seus braços, um dia iluminado pelo teu sorriso e uma noite cativante só pela cor dos teus olhos. Nós poderíamos ser um milagre concebido por Deus e desenhado por nós mesmos, teríamos um quintal regado à flores e mergulhado no luar. Conseguiríamos tempo para um jantar no jardim à luz das estrelas e com os vaga-lumes a decorar, seríamos o cântico dos anjos que nos espiariam pelas brechinhas do céu, você me beijaria e eles iriam aplaudir tal ato e eu ficaria envergonhada, mas meus olhos pediriam outro beijo logo em seguida. Faríamos amor puro de madrugada, lembraríamos momentos em nosso álbum, nosso vídeo de casamento seria assistido duas vezes na semana, terça e quinta-feira talvez, e no domingo sairíamos fácil do tédio, por que ele não existe com você por perto. No amanhecer comeríamos morangos e seu beijo de bom dia, adoçaria o meu. As flechinhas do cupido nunca mais funcionariam em nós relacionado a outras pessoas, você sendo meu e eu sendo sua. Poderíamos nos completar e ser um só, não? Sim? Sua resposta final seria que nós somos jovens e inexperientes, mas com um sentimento tão forte aprenderíamos a lidar com todos os paralelepípedos que a vida põe em nossa frente para nos fazer tropeçar. E eu riria de tudo e pediria para que você pegasse em minha mão e me levasse com você até seu lugar favorito, você levaria minha mão até meu coração e eu me surpreenderia, e entre os verbos ter, poder, ser, conseguir e pedir, eu escolheria te amar.
Das cartas que você não leu. Poesografa
Você merece tanta felicidade, sabe? Merece ir dormir na tranquilidade e acordar com um sorriso porque está vivendo a melhor época da sua vida. Você merece pessoas verdadeiras, amigos mais próximos e gente desinteressada. Você merece leveza na alma e paz no espírito. Você merece tudo isso de verdade e rezo por você todas as noites, rezo para que tudo isso aconteça logo.
Cartas para Julieta.
O azar da Tati é que ela não bebe. Essa incômoda lucidez a persegue, sussurrando em seu ouvido que as pessoas, quando dizem as coisas, não estão dizendo as coisas; que aquilo que se mostra não é o que se pensa; que há um abismo entre o que a gente queria que a vida fosse e o que ela é. Esse fosso intransponível é o que leva as pessoas a beber. Ou a escrever. A nossa sorte é que a Tati não bebe.
Antônio Prata sobre Tati Bernardi.